Não há regras para boas fotos, apenas há boas fotos
(Ansel Adams)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

UMA FOTO, UMA LEITURA



                                       Hoje e Sempre, O Passado

As águas paradas desta lagoa que ladeiam as frescas terras húmidas polvilhadas com um musgo verde vivo, iniciam o caminho para o bosque alumiado pela luz forte do Sol. Nessa águas calmas, reluz o reflexo da imagem dos caminhos da vida que lhes penetra e que as alimenta. A paisagem surge-nos imbuída de troncos fortes, encorpados e velhos que contornam as águas cintilantes como muralhas protetoras. Em cada tronco surgem ramos de vários tamanhos, neles brotam ramalhetes, numa transformação constante, onde, à medida que o tempo passa, os ramos se tornam também eles troncos e os ramalhetes dão origem a ramos, tornando-se imperceptível quando começou um e acabou outro.

Hoje, há um ramo forte e vigoroso que me encara no espelho aguado que me rodeia, em mim brotou um ramalhete que cresce a cada dia, um ramalhete que fortalece a sua fragilidade numa dependência viciante. Hoje, sou um ramo quando olho nos teus olhos cansados, nessa dança contra o sono, pestanejando lentamente as pálpebras até te deixares adormecer. Nesse momento, nesse ínfimo hiato de tempo,  quando te aconchego nos meus braços e te olho, como só um ramo consegue olhar, lembrando-me que outrora, também eu fui um ramalhete que lutou contra o sono, que se deixou vencer, adormecendo na segurança do no colo do seu ramo. É nessa nostalgia que, entre o limbo do sono e da realidade, num ímpeto, numa incapacidade de raciocinar, levado pela dor ardente da saudade, dou um salto desenfreado para aquelas águas paradas no tempo, agitando-as, fazendo-as sentir o batimento incontrolável do meu coração, provocando-lhes um movimento ondular que revolta a lagoa, que a reaviva, que transborda as fronteiras da muralha, permitindo-me viajar submerso naquele líquido frígido, cada vez mais gélido à medida que chego mais perto das profundezas da saudade, lutando contra o tempo na procura do tronco que me brotou e que se encontra debaixo daquela linha. Nado, incessantemente, à procura do ontem, à procura do abraço e, tal como te faço a ti, à procura do meu cafuné para adormecer na calma dos anjos, na luta contra o sono, nos braços de quem amo.

O regresso à superfície foi lento e longo, mas tranquilo. Nadei até ao meu tronco, comecei a subi-lo com o corpo a escorrer água, molhando-o com a mesma suavidade com que me ia secando. Chegado ao meu ramo, olhei em volta, observei a muralha que nos protegia, abracei-o com força e, numa simbiose perfeita, senti o meu corpo a ser absorvido numa metamorfose natural, calma e tranquilizante. Era de novo um ramo, um ramo de outro ramo, de outros ramos, um ramo de um tronco que outrora foi ramo. Voltaste a brotar e voltei a ver-te crescer. Um pequeno ramalhete fino, frágil e verde que, a cada dia, se vai transformando. Olho-te com orgulho, vejo-te a crescer, a ganhar estrutura, a ganhar força, a caminhar pela primeira vez sozinha. Na tranquilidade do ar que envolve a lagoa, começo a lutar contra o sono, foi um dia intenso. Agora quero apenas olhar para ti, ver-te crescer e sentir o cafuné húmido das águas da lagoa.

Foto - António Tedim
Texto - Rui Santos (www.cognitare.blogspot.com)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

UMA FOTO, UMA LEITURA






                                             Lado a lado

As águas calmas da lagoa ondulavam-se num movimento harmonioso acariciando levemente o barco, cândido e imaculado, construído com madeiras novas, pintadas de um branco singelo, mas ao mesmo tempo denso e compacto. Sentamo-nos cada um na sua ponta, deixamo-nos embalar sob o sol jovem, forte e quente, com os olhos fixos um no outro e o sorriso a preencher-nos a cara jovem e apaixonada.

Sem perdermos tempo agarramos nos remos com as duas mãos e, em uníssono, remamos com o fulgor de quem sentia que o mundo podia acabar no minuto seguinte, sempre de olhos fixos um no outro, sempre em uníssono, sempre com um sorriso que nos preenchia, que nos dava forças para continuar. Fizemo-lo durante dias, semanas, meses, anos, fizemo-lo naquele barco que começava a ficar com a tinta gasta e baça, com a madeira a começar a abrir pequenas fendas, sob o sol a envelhecer e a perder calor, com os olhares a perderem-se no ruído que nos rodeava, com as braçadas a perderem lentamente a sintonia, mas a remarmos, ainda que cada vez com menos fulgor.

O barco continuava o seu percurso, em boa verdade, porque tu remavas mais do que eu, em boa verdade eu percebi isso e não fiz nada para alterar esse estado, nem sempre estive atento para ver se precisavas que te substituísse, já para não falar de remarmos juntos, com a mesma vontade, com o mesmo esforço, de olhos colados um no outro, a brilharem do mesmo entusiasmo, ou simplesmente a remarmos juntos, ainda que fosse de forma descoordenada, mas ao menos remávamos juntos, ou não foi por isso que entramos no barco? Vi-te várias vezes a remar pelos dois, e no conforto da inércia olhava para os teus olhos penetrantes e doces como a cor de mel que os preenchia, para a tua pele morena, para o teu cabelo forte e negro, para o teu sorriso sensual, olhava e confiava que não fazia mal que remasses pelos dois, porque no meu íntimo eu havia de compensar depois...só agora percebo que não podemos compensar o passado.

Na lagoa, de brisa fresca proveniente do arvoredo verdejante que a ladeava, via os barcos como o nosso e nunca me dei ao trabalho de os olhar com atenção, de os analisar e ver neles o nosso espelho. Uns passavam a grande velocidade, com os olhares imbuídos numa pele terna e vivida permaneciam fixos um no outro e o sorriso ainda lhes preenchia a cara, como nós, outrora; outros deambulavam num ritmo incerto e sem direção; outros encontravam-se à deriva, com os remos inertes nas presilhas dos barcos, com musgo a colorir a madeira rasgada pelo tempo. Sempre pensei que, embora o meu desleixo, haveríamos de remar juntos até à eternidade, imaginei que quando não tivéssemos forças, neste caso quando tu deixasses de remar, iríamos estacionar o barco debaixo de um árvore e ali ficaríamos, de olhos fixos um no outro, de sorriso aberto, a perder-nos no tempo da paixão que nos juntou e, lado a lado acompanhávamos o sol a pôr-se.

Hoje, quando acordei, o barco apenas se mexia pela ondulação das águas calmas da lagoa, provocadas pelos barcos que passavam, procurei-te e não te vi, olhei em redor e não te encontrei, tentei vislumbrar onde estarias, mas apenas conseguia ver os barcos a passarem, com casais, de olhos fixos um no outro e de sorriso largo. Levantei-me e olhei para os remos, peguei neles outra vez, como no início e, de pé, com um remo apenas, remei, ora para o lado direito, ora para o lado esquerdo, tentei dar a volta para trás, para te chamar e dizer que lamento, que agora percebo que o barco só anda com duas pessoas a remar, mas a lagoa só tinha um sentido.

Foto - António Tedim
Texto - Rui Santos ( www.cognitare.blogspot.com )

sábado, 16 de fevereiro de 2013

UMA FOTO, UMA LEITURA

 
 
Nevoeiro
 
O meu corpo funde-se nas rugosidades que arquitetam os traços históricos desta cidade misteriosa e invicta que acorda para mais um dia. O meu corpo, denso e rarefeito, deambula neste matinal, passeio-me por cada espaço, por cada aresta desta urbe, desde o chão pincelado pelo brilho orvalhado da neblina – ora de alcatrão, calçada ou mesmo de paralelos gastos e escuros – até que termino o vagueio diário, e quando finalmente consigo ficar com o meu corpo totalmente espalhado como um cobertor que se instalou no ar, planando um ambiente escuro e ambíguo, levanto-me ao mesmo ritmo da vida da cidade, ao mesmo ritmo destas pessoas que fazem deste Porto tão característico, destas pessoas que encaram todos os dias com a mesma esperança, com a mesma certeza que por detrás de mim, que atrás deste cinzento escuro, chegará um novo dia, um dia que poderá ser melhor do que o anterior...
 
Os dias seguem-se numa rotina instalada; desde o cheiro exalado pelas padarias do pão acabado de cozer, cheiro quente que conforta a brisa matinal; o perfume da mistura das flores frescas que se acomodam nas bancas das floristas avivando o ar denso e rarefeito que emano; o “ardina” que coloca os jornais nas portas das tabacarias, presos por um fio que os aperta e pelas notícias que os sufoca; os primeiros carros a passar com as luzes ligadas a trespassar o meu corpo denso e rarefeito. Tudo se afigura igual ao dia que passou, tudo promete ser uma repetição do que já foi, mas tudo pode ser diferente.
 
O meu corpo que se espelhou pela cidade vai começar a levantar-se e, dentro em breve subirei, mas não deixarei de estar presente na imagem que caracteriza esta cidade, estarei bem lá no alto a ver mais um dia passar, um dia que pode ser igual ao anterior ou um dia que pode ser o da mudança.
 
Algures neste corpo que se espalhou pela cidade sinto uma prurido, um afagar, um esgravatar, não consigo decifrar onde, apenas o sinto, apenas sei que é distinto do habitual, apenas sei que o dia já não é igual aos outros. Como um cão que roda em si mesmo tentando ferrar a sua cauda, remexo-me, inquieto, inseguro, à procura desta sensibilidade que não sei o que é e que se agudiza, busco-a cada vez mais agitado, cada vez mais com uma ansiedade curiosa. A cada segundo que passa o escarafunchar torna-se mais intenso, mais incerto e desacertado, mas mais profundo. O meu corpo deixa-se pairar na cidade mais tempo que o habitual à procura da razão daquela novidade que está já a tornar este dia especial.
 
Depois de muito me revolver, e à medida do aumento daquela sensação, descubro aquelas mãos pequenas e rechonchudas a investigar o meu corpo denso e rarefeito. Primeiro vejo os seus dedos pequenos, depois as mãos rechonchudas e, num desatino infantil, dá-se um esbracejar desconcertante a furar o meu corpo, deixando um buraco grande que se dissolve no ar. Aproximo o meu olhar intenso e fixo-o naquela criança de olhos azuis celeste, que continuando a esburacar o meu corpo denso e rarefeito, e olhos nos olhos, emite uma gargalhada inocente que me evapora.
 
Hoje, foi o princípio dos dias melhores que os anteriores. 
 
FOTO - ANTÓNIO TEDIM
TEXTO - RUI SANTOS ( www.cognitare.blogspot.com )
 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

AQUI - Onde a Ria é mãe




AQUI - Onde a Ria é mãe

Se me tivessem perguntado onde gostaria de nascer,
diria que aqui, onde nasci; na borda-d'água!
Aqui: Onde as proas rumam a norte, cruzando as vagas.
Onde as boinas pretas - à re - movem a barca e a vida.
Onde um par de braços fortes desafia a miséria.
Onde as redes rasgam as águas, arrancando-lhe pão e vinho. 
Aqui: Onde as cores se misturam e os cheiros se confundem. 
Onde o Arrais refresca as mágoas com gotas de suor e maresia. 
Onde a mulher é esposa e amante e camarada e cúmplice. 
Onde os filhos são aprendizes de uma sina herdada ao nascer, esperançosos de a mudar. 
Aqui: Onde o remar é poesia. Onde a Ria é mãe!

Poema - Francisco José Rito
Foto - António Tedim




quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

GENTES DA RIA





GENTES DA RIA

As gentes da Ria
são feitas de coragem.
De calos nas mãos;

de pele tisnada;
de orgulho e de saber.

São mãos de trabalho,
atarefadas,
porque as marés não têm travão.
A água passa a correr
e leva o pão,
a quem não o souber agarrar.

São gente de bem,
que canta e que chora;
que reza e pragueja;
que ri da própria sorte;
que luta e vence.

Gente de poucas posses
mas de grandes sonhos...


Poema: Francisco José Rito
Foto: António Tedim
 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

FOI MENOS MAL

 
 
 
 
 
 
 



FOI MENOS MAL – Ao Arrais Marco

 

Rasga-se o céu
em grasnos agudos,
a salpicar de esperança
os seus ouvidos.

 

Sol de pouca dura...
À praia chegam
quatro escamas
a saltitar no saco…

 

E as gaivotas
bailam inquietas
por cima dos cabelos grisalhos,
ansiosas pelo seu quinhão.

 

-Foi menos mal! Grita o Arrais


Um bálsamo,
a refrescar-lhe os corpos cansados,
mas não rendidos.


Poema - Francisco José Rito
Foto - António Tedim

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

UMA FOTO, UMA LEITURA



                                                                   FOGES-ME

Foges-me. Foges-me por entre estes meus dedos jovens e imaturos que não sabem conhecer-te, não sabem chegar a ti, foges-me a cada avanço que instigo para recuperar os laços frágeis que criamos na ignorância da juventude, na belle époque da vida dos felizes contemplados que têm tudo sem esforço. Tudo era fácil e, eu, apenas eu, na ingenuidade e veleidade da imaturidade que me confortava, não percebi que as coisas se haviam tornado difíceis para ambos, era necessário sair do conforto da inércia, era necessário esforço, dedicarmo-nos a nós, dar-lhe prioridade em vez do eu…tu foste fazendo isso e, eu, apenas eu, achei que se um de nós o fizesse era o suficiente, mas não, permiti que um vidro grosso e transparente irrompesse entre nós. Sem dar conta vejo-te a fugires-me através desta parede e, quanto mais procuro chegar a ti, mais bato com a minha cara de miúdo púbere neste muro invisível e cruel que nos separa.
Com a cara colada nesta barreira fria grito bem alto que percebi, que vou fazer as coisas de forma diferente, que vou deixar que a barba comece a aparecer nesta cara de miúdo mimado, que hoje mesmo vou ao supermercado e comprarei o que quiseres, ou melhor, o que precisarmos. Farei uma lista, isso, farei uma lista de compras, vou ao supermercado e tu podes ficar em casa a descansar. Vê um filme, lê uma revista ou dedica-te a um livro. Ouviste-me? Ouviste-me? Estou a gritar e tu não me escutas, continuas a encher essa mala com a tua roupa imaculadamente dobrada aproveitando cada espaço vazio, sem desperdícios. Ignoras-me ou não me ouves, não sei bem qual das duas coisas é pior, fingires que não ouves que vou mudar ou já não conseguires ouvir-me. Mas eu continuo aqui, de cara colada neste vidro gelado a esforçar-me para que percebas que quero mudar, que quero melhorar, que não vou desistir até que olhes para mim e me ouças. Ouviste? Ouviste? Eu vou continuar aqui até que me ouças!
Começo a desesperar só de imaginar a tua ausência, começo a desesperar com o facto de me ignorares. É tarde? Diz-me, é tarde? Estou aqui aos murros nesta parede estúpida, que nem dignidade tem para ser vista, esmurro-a cada vez com mais força com a leve esperança que a possa partir e chegar até ti, pegar na tua mão, ajoelhar-me e fazer promessas que não sei se vou conseguir cumprir, mas serão as promessas que me vão na alma, ou pelo menos serão as promessas que devo fazer. É o que se espera de mim, certo? É isso, se conseguir chegar até ti tudo vai melhorar, tudo vai ser diferente. Mas este vidro irritante não me deixa, as minhas mãos ensanguentadas já me doem, começo aos pontapés, cada vez com mais força e, nada…nem o vidro se mexe, nem tu alteras a tua rotina, calmamente a colocares peça a peça na mala, vais arranjando o cabelo como se nada se passasse, ele cai-te e tu passeias as tuas mãos delicadas e maduras nesse teu voluptuoso cabelo preto, forte e brilhante, deixando-me cada vez mais desesperado.
Fechaste a mala, estás a olhar em volta a ver se falta alguma coisa. É agora a minha oportunidade. Arranjaste o fato, o cabelo, respiraste bem fundo até que finalmente te viraste. Olhaste-me nos olhos e sem que eu pudesse esboçar qualquer palavra, ouvi-te dizer: “Adeus”.
 
FOTO - ANTÓNIO TEDIM
TEXTO - RUI SANTOS (WWW.COGNITARE.BLOGSPOT.COM)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

"Pergunto por ti às pedras" de Francisco José Rito

O escritor Francisco José Rito pediu-me que escolhesse uma foto minha para ilustrar o seu texto "Pergunto por ti às pedras".
É o resultado desse desafio que hoje publico.
 
 
 
 
 



Pergunto por ti às pedras

Desci a passos largos a ladeira que me trouxe aqui. Se estivesses comigo, a esta altura já terias gritado três vezes, ofegante, para que te esperasse. Deixavas-te sempre ficar para trás e eu delirava, observando-te as cores rubras. Adorava a tua cara de esforço a chamar-me silenciosamente todos os nomes do dicionário, por te arrancar do teu quotidiano e te fazer voar comigo, até onde as pernas nos levassem. Quanto mais reclamavas, mais eu fugia. Sabia que para trás não irias…

Seguias-me até ao fim do mundo. Que mais não fosse, por orgulho; nem que ao fim fosse preciso eu carregar-te nos ombros. Mas notava-se no brilho esverdeado dos teus olhos que não era só por orgulho que o fazias. Não conseguíamos disfarçar o prazer de estar juntos.

É disso que tenho mais saudades. Do desafio permanente que era estar contigo. Os dias nunca eram iguais. Fazíamos de cada momento uma aventura e ao sair de casa, nunca sabíamos onde as nossas cabeças de vento e a vontade de ser feliz nos levariam. E muitas vezes trouxe-nos aqui, a este paraíso, escondido entre as encostas da serra.

Venho aqui frequentemente, mas este pedaço de céu não é igual sem ti. Tudo à minha volta são recordações. Vejo-te de pés descalços a correr nas águas da ribeira, a trepar nas árvores, perseguindo os pássaros, à procura dos seus ninhos. Conhecia-los a todos pelo nome e eu tentava disfarçar o orgulho que tinha em ti, assumindo-me embaraçado por não te acompanhar nessa capacidade.

Hoje parecem-me mais do que nunca, num chilrear constante, como que dando-me as boas vindas. Parecem conhecer-me, saudar-me, mas eu não os distingo. Isso eras tu, que fechavas os olhos e conseguias identificá-los a todos pelo canto. Que à tua direita cantava um rouxinol, à esquerda um verdilhão, atrás de ti um pintassilgo. Eu apenas os oiço e recordo tempos idos...

 

 
Mergulho na lagoa extasiado, como quem refresca as penas. Nas águas da cascata, tento lavar-me de ti, mas em vão. Acendo um cigarro na fogueira onde grelho um naco de carne, mais pelo sentido de responsabilidade, que por fome. É preciso preparar o estômago para este tinto maduro, o mesmo que tantas vezes saboreamos, entrelaçados.


Ponho a mesa para dois, olho à minha volta e espero-te, mas sei que não virás.

Dou comigo a murmurar o teu nome ao vento. Pergunto por ti às pedras...

Não preciso que me respondam para saber que não te viram. Sei que nunca mais cá voltaste. Tens essa capacidade, quando viras a página, jamais regressas ao parágrafo anterior.

Não sei se isso é bom ou mau. Muitas vezes desejei essa capacidade, mas não a tenho. Por outro lado, neste momento que mais teria eu, além das recordações? O recordar também é viver e estas memórias são bálsamos. Por isso não posso nem quero esquecer-te.

Tu farás como entenderes, mas eu hei-de voltar sempre aqui, enquanto estas águas me lavarem a alma e as saudades.


Vou embora. Deixo-te o que resta da fogueira acesa e meia garrafa de vinho, mesmo sabendo que não o virás beber; que o carvão se apagará sem que tu chegues.
Quem sabe um dia, esta chama que me consome, também se extinguirá.

Foto - António Tedim
Texto - Francisco José Rito www.namoradodaria.blogspot.com


sábado, 27 de outubro de 2012

UMA FOTO, UMA LEITURA




Travessia
Parece não ter fim esta ponte desmedida e austera, envolta neste ferro pesado e rígido, rasgada pelos raios de sol, que teimam em passear pela cidade invicta ignorando o negrume que tanto a embeleza. Caminho nela desde sempre, vou avançando, passo a passo, já a percorri a grande velocidade, em jovem percorri-a a todo o vapor, com medo que o amanhã me fugisse, vivi um sem número de histórias que marcaram a minha existência. Com o passar dos anos, a destreza com que dava cada passo, com que arriscava cada avanço foi perdendo o seu fulgor, comecei a acusar uma carga que me pesava as costas. Já fui jovem e agora estou menos jovem, já tive o cabelo forte e negro e agora tenho esta brancura que me cobre o couro cabeludo mostrando bem que o tempo passou, já tive um corpo jovem e hirto e, agora, mesmo não conseguindo erguer as costas, continuo a caminhar ao sabor do vento.
Prossigo a minha caminhada com o mesmo empenho do início desta jornada, entrei nesta ponte, de chão irregular que teima em fintar os meus pés, com o objectivo de chegar ao outro extremo, independentemente do que que possa acontecer, vou consegui-lo, com maior ou menor dificuldade, vou marchar até que os pés, que já pouco se levantam, não consigam dar o próximo passo… Foi a olhar para a frente que cheguei até aqui, desde o começo, sempre com o olhar colado na outra extremidade, sem pressa de lá chegar, apenas sabia que queria chegar lá, saboreei cada momento com o deleite que me merecia. Desde a infância até agora fui deambulando com uma incessante procura pela felicidade – caí, levantei-me, voltei a cair e voltei a levantar-me, vezes sem conta, dancei, namorei, embebedei-me nos bailes das cooperativa, trabalhei, casei, tive filhos, netos, bisnetos, entreguei-me a esta passagem sem medo do amanhã, sem medo desta dádiva que é jornadear em cima desta ponte, umas vezes pérfida, outras vezes presenteando-nos a abertura dos ferros, dando-nos o azul celeste do céu, a luz, a esperança, permitindo que essa luminância nos encha a alma e nos permita dar mais um passo a caminho da extremidade que se vai aproximando.
Hoje, ao chegar à extremidade, mantenho o sorriso de a estar a caminhar, ainda que, na verdade, o cansaço se tenha apoderado de mim a cada passada e, com isso, a força das minhas pernas já não seja a mesma de outrora. Olhando para a reta final, ainda sinto que consigo, sozinho, caminhar devagar, arrastando os pés de costas curvadas e pesadas carregando comigo esta mala – a minha mala cheia de histórias, cheia de lembranças, cheia de alegria – para quando chegar lá ao fundo, na incontornável extremidade, onde a ponte que afinal era de ferro se vislumbra em madeira branca e maciça, poder esticar-me com dignidade, olhar de novo em frente e, de costas bem estendidas, a poder abrir e com os braços fortes e musculados de outros tempos, deixar que tudo o que a encha se espalhe no ar e caia lentamente no coração de cada um dos que me acompanharam nesta jornada, porque tudo o resto trago comigo na minha alma.
 
Foto - António Tedim
Texto - Rui Santos (www.cognitare.blogspot.com)
 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

MARATONA FOTOGRÁFICA FNAC PORTO 2012

Participei na Maratona Fotográfica Fnac Porto 2012 com as 6 fotos que publico a seguir.Com a primeira venci o 6º tema e por isso obtive uma menção honrosa.









segunda-feira, 15 de outubro de 2012

UMA FOTO, UMA LEITURA


                         

                              A VIDA NUM MINUTO

O maço de tabaco Português Suave, cor amarelo torrado, baila nas minhas mãos como um brinquedo, manejo-o como se tivesse sido sempre o mesmo, aquele primeiro e que me agarrou a esta ligação umbilical que me compensa, que me conforta, que me completa. Olho para ele e só agora o respeito, o entendo, só agora percebo que ele sabe tudo de mim e nunca proferiu uma palavra, quer fosse para discordar, quer fosse para anuir ao que eu dissesse, ao que eu fizesse ou ao que pensasse. Esta cumplicidade de longa data faz com que a nossa ligação perdure no tempo, desde a minha juventude até aos dias de hoje, onde me encontro, tranquilamente, sentado num dos muitos bancos do jardim da praça a gozar a paz da agitação das crianças que brincam nos baloiços e escorregas.
Tiro um cigarro. Olho para ele e admiro-o como se fosse a primeira vez, como se fosse aquele primeiro cigarro que roubei às escondidas, aprecio a brancura destas novas mortalhas que cilindricamente envolvem o tabaco prensado, sôfrego e claustrofóbico. Brinco com ele entre os dedos durante uns segundos, coloco-o delicadamente na boca e acendo-o com um isqueiro Bic... a sua libertação e o seu fim começaram. Dou uma passa forte, deixando a ponta reluzir, numa luz revigorante e alaranjada, perdurando assim uns bons segundos. Enquanto eu inspiro, saboreando a inalação do fumo, o cigarro vive avidamente a sua alforria. Em uníssono, eu paro e a luz abranda, eu expulso o fumo que resta na minha boca e, o cigarro liberta um fumo quase branco, dançando na atmosfera aos ziguezagues, como se estivesse a festejar o resgate.
Deixo o cigarro arder sozinho numa liberdade juvenil e irreverente nas minhas mãos, de tempos a tempos resiste a cada investida minha, a cada passa que o consome, que lhe encurta a mortalha sem conseguir nada de mim. Outrora levava consigo os meus pensamentos, os meus sonhos, as minhas ambições... agora leva apenas a minha companhia, neste parque onde o sol espreita por entre as ramagens das árvores altas e seculares, protegendo-nos do calor abafado. Continuamos no mesmo registo de sempre, continuamos sem falar, continuamos a comunicar através do que não se diz, do que não se fala, apenas comunicamos do que sentimos, sabendo que nos entendemos, que nos escutamos no silêncio, na mudez que enche este banco de jardim, de tábuas de madeira pintadas a verde musgo, gastas, com marcas feitas com chaves ou canivetes, corações com nomes que não se percebem (ou não se perceberam). Continuamos a não fazer nada que não seja sermos a companhia um do outro, nesta tarde que já vai longa, neste dia que nos foge.
A mortalha está a chegar ao filtro, o cigarro viveu fugazmente estes minutos, libertou-se, viveu na minha companhia e, agora, parte, resignado e calmo. Não o apago, despedimo-nos lentamente, no arder entre os meus dedos amarelados, na ponta que diminui a cada passo, no vigor do início que perde a sua luz incandescente.
Sentado neste jardim, seguro-o cuidadosamente nos dedos da mão direita, paulatinamente deixamos interromper esta nossa cumplicidade e, juntos, observamos o pôr-do-sol que, sem que tenhamos dado conta, já vai longe, nesta vida que tem um minuto.

Foto - António Tedim
Texto - Rui Santos (www.cognitare.blogspot.com)
               

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

UMA FOTO, UMA LEITURA




                                                                       O BOSQUE


É tarde. Faz-se tarde. Sentado nesta cadeira de baloiço de madeira maciça, escura e com os veios profundos, resultado de tantos embalos, de tantos pores-do-sol, de tantos serões, vejo mais um dia passar, vejo mais uma vez a tua cadeira de baloiço parada, imaculada, sem qualquer rasgo, sem qualquer uso, apenas e só preenchida por um vazio de memórias, de intenções, de planos, de saudade. Vejo mais uma vez o Sol seguir para poente, de novo a sua luminância pinta no céu as cores do fim de tarde, deixando que tudo o que me rodeia se perca na escuridão que se levanta pouco a pouco. A cada passo que o Sol se afasta lentamente desta minha vista outrora cansada, a lugubridade toma conta das cores vivas e verdejantes do bosque que me rodeia. Mais uma vez, no horizonte apenas se vislumbra uma pincelada cor de laranja forte e arrojada, rematando o dia, em simultâneo com o início da beleza enigmática da noite.


A brisa noturna chega juntamente com os animais que acordam para o seu dia, os animais noctívagos começam a aproximar-se do meu alpendre, de onde é emanad0 o único ponto de luz deste recanto escondido de tudo e de todos. O bosque inicia uma sonoridade própria, primeiro uma miscelânea de barulhos – de animais, de insetos, de folhagens, até mesmo de coisas que desconheço – e, a pouco e pouco, o ruído começa a afinar-se, a sincronizar-se, transformando o que antes era barulho numa bela melodia... a melodia do início da noite. Retenho-me a apreciar a transformação, aguardando serenamente pela brisa lenta e melodiosa que chegará em poucos instantes. Aqui, neste local que me acolheu como um dos seus, deixei-me absorver pelas suas regras, não tenho relógio, horários, as necessidades vêm ao ritmo que o bosque entende e, assim, sinto-me bem, reconfortado. Quando cheguei a este local, do qual não consigo sequer saber as coordenadas, senti necessidade de seguir esta ordem pré-estabelecida das coisas, permitindo-me entranhar cada vez mais neste habitat, primeiro à descoberta e com cautela e, quando dei conta, já estava dependente do seu compasso, dos seus espaços, dos seus cheiros, dos seus sons, não conseguindo sentir-me vivo se não me sentisse, também eu, uma peça deste puzzle. A brisa chega, com delicadeza e charme, primeiro numa espécie de cumprimento aos presentes e depois, de forma gradual, numa consistência regular e harmoniosa.



Sempre me imaginei a ter estes serões, só não os imaginei sem te ter ao meu lado. Imaginei que a tua cadeira também baloiçasse, também ficasse escura, com rasgos do uso; imaginei que estivéssemos lado a lado neste alpendre a olhar a imensa e profunda escuridão do bosque, apenas com tímidas luzes dos pirilampos; imaginei que bebêssemos um cálice de vinho do Porto para aquecer o corpo desta ligeira brisa que refresca o nosso corpo, acompanhados da nossa grafonola a proliferar uma bela sonata de Chopin interpretada por Artur Rubenstein, as vozes inconfundíveis de Cecília Bartoli ou René Jacobs na interpretação de óperas como La sonnambula de Bellini ou Giulio Cesare de Handel, ou simplesmente deixar-nos levar pela liberdade do pássaro Charlie Parker ou pela rebeldia do Miles Davis e John Coltrane; imaginei-nos a olhar um para o outro e sem falarmos lermos os desejos um do outro; imaginei-nos juntos a amar-nos.



Continuo aqui sentado nesta cadeira de baloiço sem o vinho do Porto para beber para me aquecer desta brisa que me refresca, sem a grafonola para encher o silêncio que imaginava para a enigmática noite, pelo contrário, ouço a sua melodia inconfundível, livre e rebelde todas as vezes como se fosse a primeira vez e, continuo à procura do teu olhar para nos amarmos nos desejos um do outro.



Quero ir deitar-me, mas a cadeira de baloiço não para de embalar-me, a melodia da noite começa a interpretar Lover, Come Back to Me de Billie Holiday, a brisa começa a refrescar-me mais do que o habitual, sinto uma ligeira frescura que resolvo com um gole de vinho do Porto, a tua cadeira pela primeira vez começa a baloiçar lentamente...


FOTO - ANTÓNIO TEDIM
TEXTO - RUI SANTOS
 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

UMA FOTO, UMA LEITURA








A JANELA






Olho e sinto-te como outrora. Imagino-te a subires estas escadas debaixo de um guarda-chuva velho abrigando-te destas nuvens que choram incessantemente as lágrimas grossas e espessas que se colam solidariamente a esta janela, em forma de gotas, perdidas, a deambularem entre os caminhos indefinidos do vazio frio e gélido desta superfície húmida. Olho para cada uma delas sem conseguir encontrar o destino que procuram, ora escorregam pela direita, ora se perdem pela esquerda. Há apenas um elemento comum, a falta de rumo, nesta existência que terminará em breve quando embaterem no fundo do vidro, e aí, juntas, formarão um único e comum pedaço de água. Olho e sinto-te com saudade, o aperto no coração provoca o início de uma lágrima salgada que também ela nascerá nestes olhos cansados e encontrará poiso nas rugas da minha cara e escorrerá perdida à procura do nada.



Recordo-te a subires estas escadas escuras e gastas, com esforço e cuidado para não caíres, com especial atenção nestes dias de chuva, davas passos pequenos, e eu, olhava-te desta janela de peito apertado de preocupação. As gotas continuam a valsar sem rumo, sem consciência de que estão a cair, de que em breve perderão a sua liberdade. Umas descem precipitadamente como se não houvesse amanhã, outras vagueiam a demorar o seu destino e, uma delas desce na vertical, na rebeldia de todas as outras, fá-lo lentamente, como se controlasse a velocidade da sua queda, como se controlasse o seu destino, como se controlasse o meu olhar fixando-o na sua viagem, ditando também ela o rumo da lágrima que nasceu salgada e que desce em uníssono, traçando a sua passagem com um ardume por cada poro desta pele fina, escura e gasta cheia de caminhos perdidos.


Vivo-te no limbo destas lembranças que se misturam na realidade quimérica que me consola neste apartamento escuro, vazio e sem vida. Posso abdicar de tudo que resta neste cúbiculo, menos desta janela, menos desta montra, onde tu estás, lá em baixo de baixo de um guarda-chuva, a subires paulatinamente as escadas com a saca das compras, a parares para recuperares fôlego, a olhares para o cimo da escadaria, a medires quanto falta, e eu, nesta janela, ficava na imponência de quem não pode ajudar, a ver-te, com a força que só as mulheres têm a venceres mais uma batalha.


A gota de água que caiu do céu, num choro de uma nuvem, permanece na sua velocidade cruzeiro a percorrer a janela, numa carícia deliciosamente demorada e suave, a acompanhar a lágrima que escorre na minha face cada vez mais ardente, cada vez mais saudosa. Olho para as escadas e continuo a sentir-te, cada vez mais intensamente, nesta dor dilacerante fecho os olhos com força, abro-os novamente, a gota está a chegar ao seu destino, mas no instante final para...permanece uns segundos parada e cai ao mesmo tempo que a lágrima que marcou a minha cara num ardume como outrora o poeta disse, "amor é fogo que arde sem se ver".

Foto: António Tedim
Texto: Rui Santos (www.cognitare.blogspot.com)

terça-feira, 12 de junho de 2012

Uma foto, Uma leitura



A CULPA

Podemos continuar a falar como se nada tivesse acontecido, neste restaurante onde já fomos um só. Continuámos sem querer mencionar que aquilo que nos trazia aqui já não existe e que nós já não estamos aqui, ou melhor, eu estou e tu estás, mas nós como já o fomos um dia já não estamos aqui porque este vinho maduro tinto de castas do Douro já não perdura na minha boca como outrora, nem as velas que antes alumiavam a minha cara conseguem fazer desaparecer esta sombra da culpa.
Podias ao menos fingir que estás a ouvir o que te estou a dizer!

A verdade é que podia, a verdade é que queria escutar o que estás a dizer, mas tenho medo, tenho medo que perguntes o que é que eu estive a fazer até tarde no escritório, e não vá eu ter que te olhar olhos nos olhos, sem chorar, e dizer-te que tudo aquilo que construímos durante vinte anos foi destruído, tudo porque nessa maldita noite não fui capaz de lhe dizer "não", "para", "basta". Acredita que se eu pudesse voltar atrás tê-lo-ia dito de forma veemente para que não restassem dúvidas da minha posição dúbia, ou talvez não fosse capaz, mas a verdade é que querer-lho-ia ter dito…mas não disse.
Os senhores aceitam um pouco mais de vinho?

Arriscava dizer-te que parece que estamos a beber um pouco demais, mas não, já não o sei dizer, já não mereço dizê-lo, sem ser ofensivo, porque não beber um pouco demais, porque é que só me estou a preocupar agora que já é tarde demais. Como isto, muitas outras coisas poderiam ser ditas neste local onde tudo já não é o que era, porque há dias que mudam uma vida, assim como há vidas que mudam o resto dos nossos dias. Por outro lado, é melhor dizer que aceitamos mais vinho, que embora já não tenha o sabor de sempre, podemos sempre contar com o efeito inebriante do álcool, é melhor dizer que queremos que encha os copos bem cheios e que, sempre que os vir a esvaziar, garanta que não chegam ao fim, porque o melhor é bebermos para esquecer, ainda que tu não saibas o quê, vais com certeza querer esquecer aquilo que não mereces saber e que te fizeram. Vamos beber, beber para esquecer que, um dia, numa noite, num momento, num instante, eu fiz o que não poderia ter feito, para esquecer que fui fraco quando deveria ter sido forte, para fingir que fui homem quando na verdade fui uma besta.

Vamos pedir a conta, porque já estou farto do sabor a álcool etílico deste vinho, porque já estou farto destas velas me cobrem a cara de sombra, vamos embora antes que tudo se desmorone na mentira que estamos a viver e fiquemos aqui dentro, presos na verdade, presos na dor, presos no arrependimento. Vamos fugir para bem longe, tão longe quanto possível, onde a distância possa possibilitar-nos voltar atrás e fazer tudo diferente, fazer tudo bem e, aí, bebermos este vinho – aromático, tão encorpado que deixa na boca uma sensação harmoniosa e macia – e deixarmo-nos levar por uma noite de romance.

Ainda estamos nesta pocilga, quero ir embora, quero fugir, o empregado não olha, não percebe nos meus olhos que sofro, em desespero recorro ao prático abdicando do cortês para chamar pelo empregado…simulo uma assinatura em plena atmosfera. Podia esperar e esperar para dizer "desculpe", "faz favor, a conta!", mas o tempo urge, temos que fugir desta comida que já não alimenta um corpo com uma alma tão carregada de culpa, culpa por ter passado a besta e, ainda assim, tu achares que eu sou bestial, mesmo ao fim de vinte anos, mesmo depois de conheceres todos os meus defeitos, ou melhor quase todos, e ainda assim vês em mim a integridade camuflada por esses vernizes modernos que secam em dois minutos e duram e duram e duram, sempre a brilhar, sempre esplendorosos, a esconder uma unha sem cor, sem brilho, sem vida, sem honra.
Ó querido, tu hoje estás com uma cara de enterro!

Não me chames querido, não te preocupes comigo, não sejas boa comigo quando eu fui um sem vergonha contigo, e em vez de dizer "para" fechei os olhos e deixei que a minha cobardia me vencesse nesta derrota que significa a morte do "nós".

O enterro ainda está para vir e eu vou sofrer ao ver-te seres apanhada nesta dor ardente, nesta ferida de um fogo que não se vê.

Foto - António Tedim
Texto - Rui Santos (www.cognitare.blogspot.com)

sábado, 2 de junho de 2012

segunda-feira, 7 de maio de 2012

UMA FOTO, UMA LEITURA



          OLHAR PERDIDO NO TEMPO (E NO ESPAÇO)

Sentei-me no café para ler tranquilamente o jornal. Separo cuidadosamente os dossiers que interessam e deixo de lado a publicidade. Peço o café, beberico-o cuidadosamente, acolhendo paulatinamente cada trago na boca sôfrega daquele magnífico líquido castanho de sabor amargo.


Observo de soslaio a sala e, quando me preparo para ler as notícias que se repetem semana após semana, vejo aquele olhar perdido no espaço (e no tempo). Um homem na casa dos setenta anos, ora se dirige para a janela, ora afunda o seu rosto no jornal, mudando raramente as páginas do periódico, não consigo ver qual é, mas é daqueles que se oferecem nos semáforos. O seu olhar pequeno e rasgado está apoiado por uma sombra escura e inchada, como se dois papos se tratassem. O seu sorriso tímido de pouco à-vontade projeta a humildade que transpira em cada gesto, o que magnetiza a minha atenção. Tem as mãos gastas, de pele rija e calejada, com dedos fortes e encorpados, o seu fato de domingo e a pele escura quase escondem a face marcada de rugas grossas e profundas. Em cada uma das linhas daquela face morena consigo imaginar uma jornada da vida, vejo-o a nascer em casa, a chorar pela primeira vez quando inspirou pela primeira vez seguido de uma bofetadas fortes, a jogar à bola descalço festejando o golo que marcou com aquela bola feita de trapos e meias rotas, o seu primeiro dia de escola, o seu último dia do quarto ano, o seu primeiro dia de trabalho com onze anos, os cachaços dos seus encarregados, a sua luta por não chorar, a sua resiliência para ganhar uns trocos para ir a um baile, a sua primeira dança, o seu primeiro beijo, o dia do seu casamento, o dia do nascimento do filho que não pôde assistir porque estava a fazer turno no segundo emprego, o dia em que se reformou, o dia em que conseguiu olhar para trás e respirar lentamente, sem pressas, apenas a recuperar o fôlego.


Ambos temos um chávena de café à nossa frente, eu com uma panóplia de dossiers dos quais só metade se aproveita, e o homem, de fato grosso de cor castanha com riscas finas, tem unicamente o exemplar oferecido. A sua cara transmite uma serenidade de dever cumprido, não tem pressa, desfruta o momento com prazer, ao contrário de mim que o faço quase como se de um ritual se tratasse. A sua tranquilidade era de tal forma contagiante que deixei de lado os jornais e deixei-me levar por aquela suave quietude, observando cada gesto lento e preciso, cada momento importante, como o sorriso inocente, onde se podia ver a falha dos dentes que caíram e não foram substituídos, a dificuldade em ler o jornal, notando-se perfeitamente que a força que fazia para focar pedia a ajuda suplementar de óculos, o pedido de um copo de água com a timidez de quem não quer incomodar.





Quando a generalidade das pessoas vivem obcecadas com a carreira, o dinheiro, um bom carro, uma casa grande numa zona nobre, vivendo em função do que é estereotipado como ter sucesso, aquele homem de pele escura, corpo cansado e de trajes humildes, tem algo que poucos têm, a tranquilidade e serenidade de uma realização pessoal.




Aquele olhar perdido no espaço (e no tempo) encontrou-me, e eu, deixei-me guiar por ele.

Foto - António Tedim
Texto - Rui Santos (www.cognitare.blogspot.com)